Democracia x República: Por que o Brasil precisa repensar seu modelo?

Apesar de serem tratadas como sinônimos, democracia e república têm princípios completamente distintos. Enquanto a democracia prioriza a vontade da maioria, a república se baseia no império das leis e na proteção de direitos individuais. O Brasil hoje, se define como uma “democracia republicana”, mas essa mistura tem gerado distorções, uma vez que o poder do voto é frequentemente sequestrado por interesses políticos , enquanto instituições públicas falham em garantir equidade.

Na democracia, o povo decide – mas a maioria nem sempre a decisão é justa, ou mesmo está legalmente amparada. O risco da “tirania da maioria” é real: decisões populares podem ignorar minorias, direitos fundamentais ou até a racionalidade técnica. Quantas vezes projetos populistas, como isenções fiscais insustentáveis, ganham força apenas para garantir a manutenção do monopólio partidário? A democracia, sozinha, não evita abusos. Já a república exige que o Estado funcione dentro de limites constitucionais, com pesos e contrapesos. Numa república, ninguém – nem o governante mais popular – está acima da lei.

A república não rejeita a democracia, mas a aprimora. Seus princípios – como separação de poderes, transparência e respeito às instituições – são antídotos contra a corrupção e o autoritarismo. Enquanto a democracia por vezes pode ser emocional (e volátil), a república é racional: exige que políticas públicas passem pelo crivo do Legislativo, do Judiciário e da imprensa livre. No Brasil, onde o Executivo frequentemente governa por meio de medidas provisórias e o Congresso negocia cargos em vez de ideias, falta republicanismo.

O Brasil precisa deixar de ser apenas uma democracia eleitoral e se tornar uma república de fato. Isso significa fortalecer órgãos de controle, acabar com o fisiologismo e garantir que as leis valham para todos – inclusive para o próprio poder Judiciário. A crise de representatividade atual mostra que o voto, sozinho, não resolve problemas estruturais. É a república que assegura que um prefeito, governador ou presidente, ou qualquer outro membro dos três poderes não possa distorcer o Estado em benefício próprio.

Democracia e república não são rivais, mas se complementam. O Brasil já tem bases republicanas asseguradas na Constituição, mas falta aplicá-las com rigor. Enquanto a democracia dá voz ao povo, a república protege o país dos próprios excessos dessa voz. Sem esse equilíbrio, continuaremos oscilando entre polarização e injustiça. Chegou a hora de amadurecer: ser menos “do povo” no discurso e mais republicano na prática.

Por Thiago Reis

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